Por Bruno Fonseca, diretor sênior de Engenharia da Unico
O avanço acelerado da inteligência artificial redesenhou profundamente o cenário da fraude digital. Em 2025, ataques baseados em IA generativa e deepfakes cresceram mais de 1.000% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Unico. Tal fato desloca o desafio da simples verificação de identidade para a necessidade de interpretar ataques sofisticados. Nesse contexto, a confiança digital deixa de ser apenas um atributo tecnológico e passa a ocupar o centro da estratégia corporativa, exigindo decisões estruturais de longo prazo.
De acordo com dados consolidados da Unico, a infraestrutura da Empresa processou aproximadamente 1,4 bilhão de transações ao longo de 2025, mantendo precisão de 99,99% e taxas de conversão que chegaram a 99,5%. No mesmo período, registrou mais de 255 milhões de verificações biométricas mensais, com operações ativas em 23 países, refletindo a necessidade de adaptação a diferentes regulamentações e vetores de ataque.
Os dados de 2025 também evidenciam um fenômeno descrito internamente como “crescimento assimétrico”. Enquanto setores financeiros tradicionais apresentaram expansão gradual, verticais como gaming/betting ampliaram seus volumes em mais de cinco vezes entre janeiro e dezembro. Essa mudança abrupta no mix de mercado impõe desafios adicionais às arquiteturas de identidade, que precisam absorver picos de volume sem comprometer desempenho ou segurança.
Esse crescimento ocorre em paralelo à consolidação de modelos de precificação ilimitada, adotados principalmente por grandes players. Clientes que operam nesse formato concentram a maior parte do volume transacional e apresentam, em média, volumes dez vezes superiores aos de modelos tradicionais baseados em consumo. Para as equipes técnicas, isso reforça a centralidade da eficiência contínua: quando o custo marginal por transação deixa de existir, previsibilidade e resiliência tecnológica tornam-se condições básicas para a expansão sustentável dos ecossistemas digitais.
À medida que a complexidade técnica avança, o desenvolvimento convencional passa a encontrar limites. Para mim, que atuo há mais de 20 anos nesse mercado, é justamente nesse ponto que a pesquisa científica emerge como vetor estratégico. Um exemplo recente é o projeto BOVIFOCR, fruto da parceria entre a Unico e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), que, ao longo de 42 meses (com a colaboração estendida para 2026), investigou temas como biometria ocular, Prova de Vida (Liveness) e Reconhecimento Óptico de Caracteres (OCR) de documentos oficiais.
Segundo resultados do projeto, a aplicação direta dessas pesquisas gerou um aumento de 14% na quantidade de dados processados nas autenticações, mantendo uma taxa de erro de apenas 0,003%.
Além dos ganhos operacionais, a colaboração resultou na publicação de 19 artigos científicos, veiculados em jornais internacionais (Information Fusion e Scientific Reports) e conferências globais como CVPRW, IJCB e FG.
A convergência entre dados em escala, arquiteturas resilientes e ciência aplicada sustenta uma tese central: confiança digital é resultado de um sistema em evolução contínua. Somente em 2025, de acordo com a Unico, foram evitados US$4,6 bilhões em tentativas de fraude, além da recuperação de aproximadamente US$2 bilhões em receitas legítimas, ao impedir que mecanismos de segurança bloqueassem usuários reais.
Em um ambiente digital exposto a fraudes sofisticadas e pressões regulatórias, a capacidade de integrar rigor científico à execução operacional passa a definir quem consegue crescer sem comprometer a segurança. Mais do que acompanhar tendências, empresas que tratam a ciência como vetor estratégico buscam produzir tecnologia — e não apenas consumi-la.
Nesse movimento, a confiança sai da bolha de discurso e se consolida como uma construção técnica, institucional e de longo prazo, essencial para garantir que, do outro lado da tela, a identidade seja legítima.
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